Um dia o Zeca regressou da escola cheio de raiva. Antes que o pai lhe perguntasse alguma coisa, gritou irritado:
- O Pedro não devia ter feito aquilo para comigo. Humilhou-me à vista
de todos. Quero que ele sofra como eu. Quem me dera que ele parta uma
perna...
O pai
escutou tudo calado enquanto caminhou para o fundo do jardim onde
guardava um saco cheio de carvão. O Zeca viu o saco aberto e o pai a
propor-lhe:
-
Filho, faz de conta que aquela camisa branca a secar no varal é o amigo
que te ofendeu e cada pedaço de carvão é uma acusação que tens contra
ele. Atira-lhe este carvão todo.
O miúdo achou a brincadeira divertida e descarregou assim a sua fúria
mas a camisa estava longe demais e poucos pedaços acertaram o alvo. No
final sentiu-se cansado mas satisfeito por ter conseguido alguma coisa. O
pai levou-o então até ao espelho do quarto onde pôde ver a sua figura
toda suja de carvão. Só enxergava os dentes e os olhos. O pai concluiu
ternamente:
-
Filho, viste que aquela camisa quase que nem se sujou mas, olha para ti.
O mal que desejamos aos outros é aquilo que nos desfigura. Por mais que
possamos atrapalhar a vida de alguém com as nossas acusações, a borra,
os resíduos e a fuligem ficam sempre em nós mesmos.
In Asas da Montanha.
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